O RESPEITO À VONTADE DO IDOSO E A POTENCIALIZAÇÃO DA AUTONOMIA

Alanna de Medeiros Pinheiro
Psicóloga

RESUMO: Este artigo tem por finalidade compreender a importância da autonomia e do
respeito à vontade e idoso, no contexto do envelhecimento. Para tanto, foi realizada uma
revisão bibliográfica, utilizados os descritores: “autonomia do idoso”; “vontade do idoso”;
e, “escolha do idoso”. A pesquisa apontou que tais conceitos estão diretamente ligados ao
empoderamento do idoso e que emponderá-lo favorece a saúde em seu contexto amplo
biopsicossocial, respeitando seus valores e o modo peculiar com que significa a sua vida.
Palavras-chave: Autonomia. Vontade. Escolha. Saúde. Idoso.

INTRODUÇÃO

A autonomia é um conceito bastante importante, por está relacionado à garantia de
que seja assegurado ao ser humano a possibilidade de gerir a própria vida de forma
autêntica. Refletir sobre autonomia no contexto do envelhecimento se faz mister pelo
impacto que a falta dela pode vir a ensejar na vida do idoso, caso não lhe seja
assegurada.

Sabe-se que o envelhecimento é um processo natural dentro do desenvolvimento
humano e que durante tal fase da vida o indivíduo passa a conviver com um número cada
vez mais progressivo de perdas. A perda de amigos, familiares, saúde, emprego (com a
chegada da aposentadoria), da antiga rotina, dos filhos que adultos saem de casa para
constituírem suas famílias, são algumas das vivências que geralmente estão associadas
a esta fase da vida.

Deste modo, o ser humano passa a ter que se adaptar e lidar com essas
mudanças, além de perceber que o seu corpo, sua jovialidade também vêm sendo
alterada no curso natural da existência.

Nesse contexto, manter a autonomia do idoso é importante, na medida em que se
possa garantir, mesmo diante de tantas perdas, que o idoso preserve a sua singularidade
e exercite a capacidade de escolher para si possibilidades de significar a sua própria
existência.

Têm-se que compreender cada idoso a partir de uma inclinação sobre a sua
realidade, o modo com que constitui a sua vida, a sua história e suas experiências,
através do modo com que ele mesmo significa a sua vida. Muitas vezes lançamos um
olhar julgador diante de um idoso que dentro de uma família em que desentendimentos
são constantes e agressões verbais são evidentes, prefere permanecer nesta família, sem
entendermos a singularidade do contexto, das relações, dos vínculos e da forma de
constituição de cada núcleo familiar.

Retirar o idoso de sua família contra a sua vontade é ceifa-lhe o direito de escolha
e impor a ele uma escolha que pressupomos termos melhor condição de identificar como
sendo mais benéfica ao idoso, sem emponderá-lo para escolher por si mesmo. Decidir
pelo idoso é impor a este mais uma perda, a perda da sua autonomia.

DISCUTINDO A IMPORTÂNCIA DA AUTONOMIA PARA A PESSOA IDOSA

 

Durante a revisão de literatura realizada, o objetivo principal foi o de identificar
textos e artigos que pudessem esclarecer a importância da autonomia para a pessoa no
seu processo de envelhecimento e as possíveis implicações da perda dessa autonomia.
Para isso, inicialmente evidenciou-se compreender o sentido do conceito
“autonomia”, tendo sido encontradas algumas definições que serão expostas a seguir:
Medeiros (2002) evidencia que a autonomia está diretamente relacionada ao
exercício da capacidade de escolha, o que favorece à saúde integral do sujeito,
valorizando o respeito aos seus valores e singularidade, presentes na expressão da sua
vontade.

Teixeira (2002 apud FARINATTI, 1997) coloca que há níveis de autonomia, sendo:
autonomia da ação (independência na capacidade física), autonomia de vontade
(relacionada com a capacidade do indivíduo escolher livremente, de acordo com a sua
vontade) e, autonomia de pensamento (capacidade relacionada a ter uma reflexão crítica
em relação à escolha).

Por fim, Cunha et al (2012), ao discutir o princípio ético da autonomia, coloca que é
o poder de tomada de decisão sobre aquilo que se refere a si mesmo e ao autocontrole.
Conforme se pode observar na revisão realizada, o exercício da autonomia é
sempre visto como algo que viabiliza um envelhecimento saudável, em virtude de
reconhecer o idoso como uma pessoa ativa.

Sobre o processo de envelhecer, Schumacher, Puttini & Nojimoto (2013, p.06)
afirmam que “o processo de envelhecimento coloca, efetivamente, limitações nas
condições objetivas de autonomia das pessoas idosas (dificuldades provenientes,
principalmente, de condições de saúde)”, o que faz com que se faça mister uma rede de
apoio disponível dentro da família e da sociedade.

Teixeira (2002 apud NERI, 2001) traz que para se ter uma velhice vivida com
maturidade é importante que alguns pontos sejam preservados favorecendo a integridade
do ser, dentre eles: continuidade no aperfeiçoamento pessoal; autorrealização; sentimento
de que a existência tem um sentido; a capacidade de superar as limitações da velhice,
dentre elas o ajustamento em relação a compreender seus novos limites dentro da
realidade; o desenvolvimento de novos papéis sociais, buscando participar de novas
experiências, já que as passadas não voltam mais; e, o senso de domínio.

Assim, cabe destacar que, mesmo diante de um contexto em que o gerenciamento
das atividades da vida diária possa estar prejudicado pelo processo natural do
envelhecimento e suas perdas, o idoso precisa ter potencializadas suas capacidades e
respeitadas as suas limitações.

Observa-se, ainda, por Teixeira (2002), que o desenvolvimento de novas
habilidades, competências e atitudes, em relação ao novo contexto de vida, estão
diretamente relacionados com uma velhice sadia.

Fornecer suporte ao idoso significa escutá-lo, compreendê-lo e articular a sua
vontade com as possibilidades de vida que o mesmo pode ter. Nesse sentido, é
necessário compreender que cada sujeito, na sua singularidade, escolhe para si dentro de
uma realidade social que precisa ser observada e valorizada, sem julgamentos
precipitados e com um olhar inclinado sobre quais os fatores que estão levando àquela
pessoa a manter uma decisão sobre a sua realidade, que, possa, inclusive,
aparentemente, parecer prejudicá-la.

Um idoso, por exemplo, que escolhe permanecer sendo cuidado por um filho
negligente pode ter vínculos tão fortes que o façam lançar um olhar mínimo sobre a
negligência, valorizando o contato, os sentimentos e a história de vida. Outro idoso na
mesma condição pode não identificar a negligência por ele mesmo ter sido negligente
para consigo mesmo e sua família por toda à vida. Outros, ainda, poderiam escolher viver
em uma instituição de longa permanência em vez de ter o contato familiar, seja por não
querer incomodar a família, por desejar sair de um ambiente conflituoso ou pela
valorização de uma vida institucional com outras pessoas de sua mesma faixa etária.
Deste modo, fica claro que cada experiência é singular e que o que precisa ser
compreendido são as razões que fazem o idoso escolher permanecer em uma condição
específica, ou seja, voltar-se para ele com atenção para buscar compreendê-lo na
escolha do exercício de sua vontade.

Segundo Medeiros (2002, s/n):
“A possibilidade de escolha é o alicerce da autonomia.
Para que exista uma ação autônoma é preciso que
existam alternativas de ação, pois somente assim o
sujeito poderá escolher o que considera melhor para si.
Se existe uma única opção, um único caminho a seguir,
não existe possibilidade de exercer a autonomia”.
Tal caso pode ser constatado em muitas situações em que o idoso se encontra
sem opção de como quer viver a sua velhice: muitos sem renda, sem filhos e sem famílias
se vêm obrigados a aceitarem a medida de proteção de abrigamento. Outros, sem a
capacidade de responder mais por si, dentre eles, alguns acamados, ficam na
dependência total de pessoas que podem maltratá-los sem que nada os idosos possam
fazer para mudar a sua situação, ficando na dependência da boa vontade de terceiros,
que vendo-os em sofrimento, acionem os órgãos de proteção e fiscalização. Esses são
sujeitos que não têm outras possibilidades de escolha diante de si, aceitando a opção a
sua frente.

Sanches et al (2008) afirmam que envelhecer saudável é o envelhecer de forma
ativa, buscando o equilíbrio biopsicossocial, viabilizando o desenvolvimento das
potencialidades do idoso. Desde modo, o suporte social não deve ser substitutivo da
vontade do idoso, mas, deve favorecer a expressão da mesma e assegurá-la.
Segundo Silva e Alves (2007), o processo de envelhecimento é inerente ao ser
humano, entendido como um fenômeno parte do processo de desenvolvimento, que
favorece o crescimento, a aprendizagem, o amadurecimento e o aperfeiçoamento do
homem.

Teixeira (2002) expressa que há na sociedade uma confusão entre dependência
física e a dependência na tomada de decisão, e, que, muitas vezes, o que ocorre é a não
escuta autêntica do desejo do idoso, afirmando ainda que a autonomia e segurança são
necessidades básicas, vinculadas ao processo de envelhecimento, e que o ambiente
social é um dos fatores associado à influência de como será vivida a fase do
envelhecimento, em seus comportamentos e atitudes.

Teixeira (2002 apud BALTES e SILVERBERG, 1995, s/n) pontuam que a atitude
paternalista da sociedade em relação ao idoso faz com que a mesma se coloque no lugar
de “fazer tudo, no lugar do idoso, negando sua liberdade, autonomia e capacidade de
escolha, que devem ser preservadas durante toda a vida”.
Deste modo, ao se compreender o envelhecimento dentro de um contínuo da
própria expressão da vida, têm-se que discutir que o respeito à vontade do idoso é antes
de tudo discutir a própria vontade do ser humano, seu direito de escolha e o
emponderamento.

Neste viés, observa-se a importância de que toda e qualquer política que tenha
como objetivo discutir a situação do idoso leve em conta o fortalecimento da capacidade,
da autonomia, da participação e da auto-satisfação do idoso, abrindo espaço para que
este se coloque de modo ativo diante do seu processo de envelhecer, significando-o
conforme a sua singularidade (Veras, 2005). Corroborando com a autora supracitada,
Teixeira (2002) apud Farinatti (1997) evidenciam que o indicador de autonomia não está
atrelado à ausência de dependência física, mas, à capacidade do idoso de se realizar
diante de suas possibilidades.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante da proposição de se investigar acerca da autonomia do idoso, observou-se
que este conceito se refere tanto à capacidade do idoso de gerir a própria vida, quanto de
manter a expressão da sua vontade, respeitados seus valores, o que está diretamente
relacionado com a noção de bem-estar e da manutenção da saúde integral.

Observou-se, ainda, a importância de se compreender o processo de
envelhecimento enquanto uma mudança dentro do desenvolvimento humano e não
vitimizar o idoso em atitudes paternalistas, mas, potencializar suas capacidades e
respeitar suas limitações.

Evidenciou-se que o exercício da autonomia se faz mister no processo de
envelhecimento por se respeitar a capacidade do idoso de escolher, dentro da sua
singularidade e da sua experiência de vida.

Concluiu-se, desde modo, que o exercício da autonomia pelo idoso é visto, na
literatura encontrada, como um indicador importante na manutenção da saúde
biopsicossocial do idoso, favorecendo que esta fase da vida seja de crescimento pessoal
e de desenvolvimento de novas habilidades na transição pelos processos de mudança
inerentes à idade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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